Por Telmo Fonseca

No dia em que não existir uma qualquer polémica que arraste mais de uma centena de posts inflamados sobre o último escândalo no Airsoft, certamente está para vir algo muito pior.

Uma arma longa que passa a ser curta. E depois volta a ser longa. Uma pintura que estava legal quando foi inspecionada em loja, ou mesmo nas mãos de um agente fiscalizador em campo, e que nas mãos seguintes já não está. Um silenciador que passou a denominar-se de “ponteira terminal”, e mais tarde passou a acessório ilegal porque não tinha um parafuso, ou porque o comprimento do cano interno não acompanhava a totalidade do cano externo. Uma bull-pup em que não se sabe muito bem qual é a parte em que começa ou termina a coronha. Um chrony que serve para medir a potência, mas que afinal não estava aferido para tal. E depois volta a estar, desde que seja tirada uma média de 10 disparos. Uma gramagem específica de BB para medir limites de FPS impostos por uma lei que apenas refere joules. Mais tarde, afinal os FPS também já servem. Um seguro que ninguém ouviu falar, mas depois passa a ser obrigatório, primeiro individual e depois apenas válido para associados e em eventos organizados pela APD que o pagaram. Um aviso às autoridades locais, que depois passou a pré-aviso às autoridades centrais, e que acaba sobre a alçada exclusiva de uma APD, ou de alguém da sua confiança, algo que nem sempre funciona da melhor forma. Algo denominado de “jogo” que depois passa a “evento”, e mais tarde a “prova”. Um cartão que era emitido na hora através de uma qualquer impressora, que passa a plástico, e depois a simples certificado digital. Uma obrigatoriedade em fazer-se acompanhar de faturas de compra que na realidade não está escrita em lado absolutamente nenhum que não um e-mail qualquer que alguns ouviram falar e muitos poucos tiveram acesso. Uma diretiva escandalosamente castradora que surgiu do nada e à revelia do próprio agente fiscalizador, sem aviso nem debate pelos verdadeiros interessados nela. Terabytes de informação e discussão por todo o lado, mas que mudam de um dia para o outro, e sempre para pior.

…e creio que brevemente vêm por aí mais surpresas. Após anos e anos de tentativas de golpes de charme e aproximação à autoridade completamente frustrados, sempre que surge um novo “player” em cena, lá vem mais tempestade de m… para cima dos idiotas do costume.

E no meio disto tudo, aparece sempre mais um “artista” que, por ignorância ou intenção, lá aparece nas redes sociais a prevaricar, tal qual perigoso criminoso quiçá até terrorista, deixando-se fotografar com mais um brinquedo de plástico fora da minúscula margem de manobra que a ridícula legislação nos deixou.

Interrogo-me… dadas as condicionantes, estavam à espera do quê?

Podia continuar aqui o resto da tarde mas, e perdoem-me o meu francês, é preciso tanta merdinha só para brincar às pistolinhas?

Não conheço, em todo o Mundo, nenhum país onde exista tanta legislação, diretivas, pareceres ou restrições ao Airsoft como em Portugal. Ora, com uma comunidade de sensivelmente 15 mil praticantes que até é relativamente organizada, quase duas décadas da atividade no país, um nível de associativismo muito acima da média, três ou quatro dezenas de espaços comerciais e pelo menos oito associações de promoção do desporto devidamente reconhecidas, devo tirar o chapéu ao legislador, que não deve ter nada melhor para fazer que surpreender-nos constantemente com a sua criatividade e, diga-se, alguns requintes de malvadez, deixando esta comunidade constantemente em bicos de pés, fraturada, e a insultar-se de forma gratuita.

Mas esse era o objectivo final, certo? Dividir para conquistar, criando um constante estado de Esquizarsoftofrenia, sem a merecida resposta, certo?

Neste momento, a única pergunta que faço a todos os que me lêem é a seguinte: será que 15 mil indivíduos maiores de idade não dão votos? É que, se bem me lembro, o agente legislador está acima do agente fiscalizador. E essa parece-me ser a única solução, aparentemente esgotadas que estão todas as outras tentativas de aproximação.

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