Por Luís Filipe (CMDT-GOFE). Fotografias de João Relvas

O Debriefing da Operação um pouco mais tarde que o normal, mas como todos sabem estamos a passar por uma fase menos boa, com a perda de um elemento do GOFE e, por esse motivo, a disposição para escrever não tem sido das melhores.

Foi então realizado mais um evento GOFE, como sempre com muito trabalho, muitas horas de planeamentos, muitos quilómetros andados, despesas para lá do esperado, algumas coisas que não correram como planeado, sendo o seu ponto de ignição algo onde não detínhamos qualquer poder ou forma de mudar o seu desfecho, como iremos mostrar a todos mais á frente.

Quando as coisas correm bem somos os primeiros a assumir esse êxito. Quando correm menos bem, somos igualmente os primeiros a reconhecer que assim foi, pois ninguém mais do que nós é crítico e exigente com o seu próprio trabalho, e sem qualquer problema em assumir a situação.

Como comandante e responsável do GOFE, posso dizer que num panorama superficial estatístico e comparativo com outras Operações de 99% de êxito, o Combat Mission, cumpriu apenas com 60% de êxito e do seu planeamento, sendo que os outros 40% em falta foram uma sucessão de falhas na sua fita-tempo previamente planeada, e que se repercutiu em várias outras situações, originadas como em cima referi por falha da parte mais importante de todo o evento: o helicóptero.

Helicóptero esse que estava no planeamento, orçamentado em 4800€, com a firma Helibravo. E isto meses antes e até confirmada na última reunião operacional, 8 dias antes do evento, onde foi falado e apresentado todo o planeamento e tudo o que queríamos que fosse feito, ao qual todas as respostas – quer do cmdt/piloto, quer do responsável operacional da firma – foram sempre positivas.

E para nós era imprescindível que assim fosse.

Partimos para o terreno na terça-feira á noite e na quarta-feira ao nascer do dia já estávamos em montagens. Na quinta-feira, em montagens com todos no terreno, recebemos informação por parte da Helibravo que a sua firma não poderia fazer o trabalho, e que não tinha nenhum helicóptero nem piloto disponível – alegadamente porque tinham recebido uma requisição civil e tinham sido chamados pela proteção civil durante essa semana para os fogos que lavravam na zona de Pedrógão Grande.

Ou seja, uma firma privada que até então merecia da nossa parte, GOFE, seu cliente com alguns milhares de euros pagos por outros serviços realizados, todo o respeito e consideração, onde até já existia alguma amizade mútua, tinha acabado de abandonar o seu cliente, deixando-o na mão com o seu evento já com vários meses de planeamento e reuniões, onde sabiam de antemão que o seu helicóptero, a sua função, e a forma como a iriam executar, era insubstituível por outros meios, e por isso importantíssima para o desenrolar de toda a operação e êxito desta 2ª edição.

O que orçamentamos com a firma Helibravo, tal como outras vezes o fizemos  – dezenas de vídeos anteriores podem comprovar isso – foi que o helicóptero “iria voar sem portas”,” iria voar em voo táctico”,” iria voar pelos percursos planeados e cartografados”,” iria pousar nas LZ pela ordem operacional estipulada”,” iria pernoitar na LZ do QG principal para o povo da aldeia poder ver e tirar fotografias, e ainda estar disponível na zona de operação para voos inopinados”, tal como aconteceu em 2016, no OEX.

Perante tal cenário de desastre, de colapso total de todo o nosso trabalho, após muitos telefonemas e mensagens que temos em documentos e gravação entre o GOFE e a Helibravo, após o almoço de sexta-feira a Helibravo informa-nos que tem um “parceiro” que iria fazer o serviço tal como contratado a eles. Apenas os valores seriam um pouco mais elevados e, para o helicóptero se deslocar para o local (zona de operação) teria que estar toda a despesa completamente liquidada, porque se assim não fosse, o helicóptero não estaria disponível.

Uma vez mais perante toda a situação de desastre, concordamos sempre questionando se a nova firma – a Heliportugal – iria fazer exatamente o que nós havíamos contratado com a Helibravo, ao que sempre nos foi respondido que sim, tal e qual, e que o piloto era muito experiente e já havia sido briefado pelo cmdt/piloto da Helibravo, para o trabalho que deveria efectuar.

Entre varias peripécias telefónicas, surgiu o 1º contacto com a Heliportugal que, no espaço de 3 horas seguintes ao contacto, aumentou o orçamento da Helibravo, passando de 4.800,00€ para 6.588,23€, valor que teria que ser pago até ás 19h00 de sexta-feira – dia de chegada dos participantes. Depois de várias discussões, telefonemas e peripécias com a Heliportugal, o GOFE, através do seu principal patrocinador e outros, conseguiu juntar toda essa quantia para transferir a verba, de forma a garantir o helicóptero no dia seguinte.

Naquela altura já não estava em causa o valor a ser pago a mais, mas sim a permanência na operação da aeronave. Após tudo estar tratado, já pela hora do jantar de sexta-feira, lá ficamos um pouco mais aliviados pois estávamos seguros que o helicóptero iria estar presente.

Demos então inicio aos últimos preparativos, recepção de participantes, briefings, deslocação para as bases, inicio da Operação Combat Mission, etc. Tudo a rolar normalmente.

Sábado às 09h00, sou informado que deveria ir ao QG principal para receber o Helicóptero e dar início aos voos de reconhecimento. Lá fui. No terreno, tudo a desenrolar-se normalmente, e todas as missões a desenrolarem-se de acordo com o planeamento. Chego ao QG Principal com algum atraso e, para meu espanto, vejo o Helicóptero ainda com as portas colocadas. Dirijo-me ao piloto e pergunto-lhe porque ainda não tirou as portas do helicóptero para darmos início aos voos de reconhecimento.

Para meu espanto levo com esta resposta: “TIRAR AS PORTAS? O HELICÓPTERO NÃO VAI VOAR SEM PORTAS”.

Então, mas nós contratamos o helicóptero para voar, sem portas, em voo tácito, foi o que contratamos com a Helibravo, e que eles transmitiram à Heliportugal, etc… Resposta do piloto: “não, não vamos voar, nem sem portas, nem em voo táctico, não foi isso que foi contratado com a Helibravo. Para quem me conhece, pode imaginar a panela a ferver, conversa daqui, conversa dali, ainda levo com outra surpresa:

“Ha, e o mecânico vai ter que ir também!” Ter que ir para quê ? “Para abrir e fechar as portas, e colocar os cintos aos passageiros.” Parecia o natal. Eram só surpresas.

Telefonemas para o chefe de operações da Heliportugal, que dizia que o aparelho tinha sido contratado para um passeio, que tudo o que nós queríamos que fosse feito era proibido pela ANAC, e que não faziam. Se a Helibravo o fazia, era da sua responsabilidade. Troca de palavras, e estava perante duas firmas que supostamente pelo menos uma – a que já conhecíamos – seria profissional, mas que afinal assim não parecia, e que naquele momento apenas tentava descortinar qual era a firma dos mentirosos.

 

Entretanto já tinham passado quase duas horas, e tinha que tomar uma decisão final. Voar assim? Ainda poderíamos prosseguir com a Operação e movimentações das equipas de norte para sul e vice-versa. Ou não voar? E toda a operação terminava ali naquela decisão, porque como disse no início, toda a operação passava pelo helicóptero, e não tínhamos qualquer outro meio de transporte que movimentasse as equipas para os locais planeados, ou que o substituísse. Para além de que os 6.588,23€ já estavam pagos, e se decidisse não voar poderiam não restituir a verba.

Após quase 3 horas nisto, e depois de ouvir alguns conselhos de ponderação e diálogo que agradeço, pois quem me conhece já sabe qual era a minha vontade naquele momento, lá autorizei que o helicóptero voasse, com um pendura e com um piloto que, depois do voo de reconhecimento que efectuou, mais valia era dedicar-se á pesca. O que vim a constatar posteriormente, com péssimo serviço prestado, que está documentado em vídeos. Não efectuou os trajectos que estavam planeados, largou equipas onde não devia, e em locais não programados na operação, etc.

Heliportugal: uma firma de MAUS PROFISSIONAIS e INCOMPETENTES, que não aconselho a ninguém.

Depois de tudo isto, o GOFE teve que efectuar grandes reajustamentos a todo o planeamento, sem nunca perdermos a esperança de recuperar de todos estes imprevistos. Infelizmente os erros do piloto continuavam, largando equipas onde não era suposto, nunca contactou o comando nem deixou forma de ser contactado, basicamente estava ali para passear juntamente com o seu mecânico com o dinheiro já do lado deles e, para nós, um desastre à beira de não ter recuperação.

Felizmente a nossa experiência e credibilidade obriga-nos a não baixar os braços, e foi isso que fizemos até ao fim, pois o “durante” já todos sabem o que aconteceu. Tentamos fazer com que a Operação decorresse da melhor forma possível, diante de todos os enormes imprevistos que aconteceram. Demos o nosso melhor, pensando em todos os que estiveram presentes, que também nunca deixaram de acreditar que nós, e temos a certeza que muitos dos que já nos acompanham há muitos eventos conseguiram aperceber-se que algo estava a acontecer, que algo não estava bem, mas continuaram também eles a tentar divertir-se da melhor maneira possível.

Resumindo, de toda esta situação, podemos dizer que aprendemos algumas lições que nos farão ser mais fortes no futuro, mais conscientes, o que nos levará a agir com maior precaução relativamente a contratos e serviços prestados por outros.

Tal como aprendemos uma enorme lição: por mais que planeemos e tenhamos planos secundários para isto e para aquilo, vai haver sempre alguma coisa que irá fugir do nosso controlo em eventos/operações com a dimensão e logística como os que ousamos organizar.

Por tudo o acima mencionado e sem qualquer pudor ou vergonha, como comandante e responsável pelo GOFE, assumo a total responsabilidade de tudo o que possa não ter sido do agrado dos que participaram ou que não tenha ido ao encontro das vossas expectativas. Peço que aceitem as minhas desculpas e que não deixem de pelo menos acreditar no que vos relatamos referente a toda a situação.

A título informativo, o GOFE continua em troca de e-mails com ambas as firmas, para encontrar um responsável pela situação que ambos teimam em empurrar um para o outro, e iremos efectuar queixa nos respectivos livros de reclamações, queixa referente a cada firma – Helibravo e Heliportugal – na ANAC (Autoridade Nacional Aviação Civil) por mau profissionalismo, incompetência e fraude.

A título de curiosidade, iremos mais tarde, e como sempre, apresentar as contas do evento e justificar todos os valores pagos pelos participantes mas, para que possam ter um ínfima ideia do que falamos, apresentamos apenas alguns números:

  • Participantes: 44 X 150€ = 6.600€ + Roll-Players: 4 x 45€ = 180€
  • Receita: 6.600€ + 180€ = 6780,00€
  • Custo do Helicóptero: 6.588,23€
  • 6.780,00€ – 6.588,23€ = 191,77€
  • Receita positiva e disponível para início de trabalhos: 191,77€

Esta é a verba que ficou dos participantes: 191,77€. Para podermos fazer tudo o resto que seria necessário, desde o 1º dia em que foi apresentado, consumido no Combate Mission. Efectivamente dá que pensar, e talvez seja importante meditarmos sobre estes números, e até ponderarmos muito bem uma continuidade ou não na realização de eventos desta dimensão e neste registo.

Agradecemos que continuem a deixar os vossos rescaldos e opiniões relativas ao evento, pois como sempre estivemos, continuaremos sempre abertos a receber e aprender com todas elas.

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