Por Rui Godinho e Telmo Fonseca

Por vezes surgem determinadas coisas nesta modalidade que demonstram bem o quão épica pode ser a criatividade e a qualidade com que se pode praticar um desporto tão simples como este, cuja base consiste em atirar esferas de PVC contra um adversário.

Os “snipers” estão atualmente na moda e, acompanhando essa tendência que geralmente migra dos campos de jogo para as redes sociais e Youtube, existe um exército de youtubers a criar nome e gerar receita através de vídeos que nos banqueteiam com verdadeiras “killing sprees”, ” headshots” e outras tendências, genericamente associadas à estética dos jogos de computador.

Mas depois também há quem, e embora com toda a humildade e acessibilidade possível, nos deixe de queixo caído com uma abordagem totalmente diferente ao conceito de “sniper”. E este é o caso dos Raptors Division, que quem estivemos à conversa para conhecer melhor.

Quando surgiu e de onde são?

Surgiu em 2009 em São Bento do Sul, Santa Catarina , como uma dissidência do antigo CTA (Curitiba), e inicialmente apenas com dois integrantes. Para dar mais identidade a equipe acabou, criando a Raptors Division. No início de 2010 mais integrantes vieram a fazer parte da equipe, e assim se manteve. Hoje somos:

  • Franklin Wiese
  • Marco A.K. Roesler
  • Ivan Borba
  • Friedrich “Fredi” Buddmeyer
  • Ronei “Ares” Santana

O porque de uma equipe de snipers?

Inicialmente, toda a equipe era formada por jogadores equipados com armas de assalto (que ainda possuímos!). Em 2011, o Franklin compra a primeira sniper da equipe, dando o pontapé inicial. Como a equipe é formada por vários praticantes de tiro esportivo de precisão com armas de fogo, era um caminho natural para nós seguirmos.

Como são seus treinos e rotinas de preparação de jogos?

Individualmente, os integrantes já passaram por diversos treinamentos táticos nas mais diversas áreas (Sniper, CQB, combate em mata).

Ministrados por pessoas de renome nacional (todos “operadores reais”), e sempre procurando sintetizar o conteúdo, adaptando-o para o modus operandi da equipe. Encontros pontuais da equipe são realizados para acerto de armas, planejamento de operações/jogos, questões técnicas e táticas. Se tornou comum procurarmos nos informar o máximo possível sobre o terreno em que iremos atuar, para poder ver questões de camuflagens e afins.

Na questão de preparação, um ponto onde investimos muito tempo durante os primórdios, foi o de classificar a munição.

Pesamos e medimos em laboratório, para termos fiabilidade. Em paralelo fazemos análise de superfície em projetor de perfil, para podermos observar o polimento, irregularidades de superfície, etc.

Muitos podem dizer que é exagero, mas chegamos a encontrar em um pacote de .43 , bb´s de .38 a .48!!! Alguns fabricantes e importadores chegaram a nos procuram para avaliarmos as munições, e tivemos boas novas e melhoras significativas nesse sentido.

Como é vossa atuação em jogo?

Geralmente preferimos um modo de jogo separado do grosso do combate, flanqueando e engajando alvos de oportunidade. Já fizemos missões de puro reconhecimento em alguns jogos, em que nem chegamos a engajar alvos, apenas repassamos movimentos de forças inimigas.

Como é o vosso loadout?

Não temos um padrão universal dentro da equipe, sendo que cada atirador define quais itens acha necessário para cada ocasião. O que pode-se perceber é o loadout sempre leve, priorizando cintos utilitários e evitando uso de coletes e estruturas de perna. Mochilas pequenas são utilizadas em jogos mais longos. Ghillie Suits de fabricação própria ou comprados e adaptados fazem parte da camuflagem furtiva, variando de local para local. Os padrões militares de camuflagem que a equipe adota são o Kriptek Mandrake, Cadpat e Flecktarn.

É comum um integrante adquirir algum artigo novo, testar o mesmo e depois repassar para a equipe. Como são vários snipers, acabamos testando vários itens e conseguimos evoluir em alguns aspectos, mais rapidamente.

Dos itens mais pitorescos que passamos a levar junto ao equipamento, tem sido os alicates de corte. A ideia dele e a substituição de facas ou facões para avançar em terreno com vegetação – notadamente rastejando – pois apesar de ser lento, o mesmo não agita a vegetação ao cortar, nem faz tanto ruído quando os métodos com lâminas. Já nos foram úteis, muitas vezes.

Uma questão que sempre observamos é o clássico “só te vi por que vi isso ou aquilo…” imediatamente modificamos, pintamos ou retiramos itens que gerem destaque e se tornem proeminentes.

Qual a vossa visão hoje em dia do papel do sniper e como enxergam os demais jogadores desta função?

A visão que se tem da posição é um tanto quanto “endeusada”…como se fosse o topo da “cadeia alimentar” do Airsoft, o que é muito errado.

Vemos que, aqui no Brasil, a visão do que é ser um sniper no Airsoft está um pouco distorcida. Algumas vezes a única coisa que se busca é uma contagem de Kills, número de eliminações, e se possível, Headshot. Obviamente que existem vários bons jogadores na função. A nossa visão do que é ser um sniper é um pouco diferente.

Há jogos onde nossa função fica sendo apenas para reconhecimento, ou para cumprir alguma missão específica atrás das linhas inimigas, onde o engajamento de inimigos fica em segundo plano, mesmo havendo alvos pelo caminho.

Quem consegue encontrar o sniper nesta foto?

Quais os momentos mais memoráveis?

Fenix V: atuando como membros da CIA, secretamente infiltrados nos exércitos e cumprindo missões de interesse próprio. Tivemos que resgatar uma maleta com componentes químicos, e estávamos com ela em posse quando nos deparamos com amigos de um dos exércitos, procurando pela mesma maleta. Escondendo-a com nossa camuflagem, conseguimos passar por observadores de campo e escapar dos outros soldados em posse da maleta. Logo após eles são informados disso, e começa uma fuga alucinada para conseguirmos escapar com a maleta. Foi fantástico.

Operação Red Faction:  enquanto dois integrantes ficaram em uma torre observando a movimentação inimiga, outros dois ficaram em solo, eliminando os alvos que eram cantados pelos spotters na torre. Momento raro e quase único.

Nesse jogo foi obtido o recorde interno da equipe em distância de disparo único confirmado: 116m.

Operação Special Combat One: Estávamos três e fomos divididos em duas frentes de defesa. O raptor, que estava na linha de defesa da mata, se camuflou e deixou o inimigo passar por ele. Iniciando algumas eliminações pelas costas, o inimigo acabou trocando tiros com uma segunda linha de aliados que estava subindo a mata, causando diversos friendly fires, e ludibriando o adversário.

Operação Minotaurus: Dois dos nossos ficaram a manhã toda do primeiro dia de combate no alto de um rochedo, apenas passando informações de movimentação de tropas para o comando do nosso exército.

Algumas vezes ser sniper é ‘apenas’ isso.

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