Por Telmo Fonseca

Nas últimas 24 horas fui acusado de alarmismo, de induzir ao engano, ou mesmo de fazer “Clickbait”, após ter escrito na página de Facebook da 6mm Portugal a seguinte frase:

Para as “elites” do Airsoft em Portugal nada mudou, e tudo “já estava na lei há muito tempo”. E eu até quase que concordo com a afirmação.

Se eu tiver o número pessoal de telefone do Presidente da minha APD ou, melhor ainda, de vários, se eu tiver um clube de praticantes com dimensão suficiente para fazer as exigências que bem entender, sob pena de me mudar para qualquer outra APD e levar comigo associados e respetivas quotas, se eu não me importar de pagar mais por uma manhã de Airsoft ou por um cartão de associado, para mim tudo está bem.

E se eu quiser eliminar do Airsoft todos os que não pensam da mesma maneira que eu, ainda melhor.

Porque agora quem manda nisto tudo sou eu, que tenho o poder de decidir se gosto do jogador, da equipa ou do clube que se propõe a organizar a “prova” de Airsoft.

Eu repito, para os mais distraídos: “prova” de Airsoft. Acabaram de ser eliminadas as denominações de “jogo”, “treino”, “evento” ou mesmo “bagada”.

Agora tudo são “provas” de Airsoft, e até para afinar o hop-up no meu quintal terei cumprir com os seguintes requisitos: Comunicação à minha APD, e respectiva “supervisão” (aguardamos serenamente para saber em que modos), sinalização “oficial” (aguardamos serenamente para saber qual) do local da “prova”, comunicação à PSP, com antecedência mínima de 10 dias, onde conste a seguinte informação:

  • a) Do local onde a prova se realizará;
  • b) Da natureza e caraterização da prova ou atividade a praticar;
  • c) Da estimativa do número de praticantes;
  • d) Do comprovativo de comunicação à autoridade policial responsável no local da prova;
  • e) Dos comprovativos de obtenção das autorizações previstas na lei;
  • f) Da identificação do responsável pela realização da prova e meio pelo qual pode ser contatado.

…além dos óbvios requisitos legais relativamente às armas, suas pinturas (e aqui consta que também existem novidades ainda por esclarecer) e potências, bem como a questão mais essencial de todas, e talvez a única que continua a gerar verdadeira confusão e merecia uma “norma técnica” só para ela: os seguros.

Haaaaaaaaa, sim, os famosos seguros, onde tudo está bem até ao dia em que morrer um praticante durante um jogo.

Mas também aqui é possível ler as entrelinhas da recente Norma Técnica, porque se esse infortúnio acontecer, e a seguradora assobiar para o lado, agora ficou mais fácil de encontrar o “responsável pela realização da prova e meio pelo qual pode ser contactado“.

Alguém que pague a conta.

No meio disto tudo, quem ficou a ganhar foram duas entidades: o agente fiscalizador, que do dia para a noite ficou com faca e o queijo na mão para aplicar até 4.000€ onde bem entender, e as APD, que têm nas suas respetivas secretarias a exclusividade de decidirem ao mais ínfimo detalhe quantos praticantes podem carregar no gatilho, onde, como, quando e porquê.

De fora de qualquer poder de decisão fica a larga maioria dos praticantes que, pela distância, estatuto ou simples falta de meios de comunicação funcionais com a sua APD, não tem hipótese virtualmente nenhuma de voltar a praticar Airsoft de forma legal.

E será que vão acabar os “joguinhos” a dois euros seguidos de umas cervejinhas e convívio? Será que vão acabar os treinos de equipa à porta fechada ao domingo?

Duvido, sinceramente. A única coisa que vai mudar é a quantidade de praticantes de atos ilícitos.

Já passaram mais de 12 horas desde que a Norma Técnica está em vigor e, que eu saiba, nenhum praticante foi autuado, nenhuma APD enviou o devido esclarecimento aos seus associados, nenhuma “prova” foi cancelada, e eu e mais uns quantos tolos como eu insistimos aqui e no Facebook em tentar fazer passar a melhor informação possível sobre a verdadeira dimensão deste caos que acabou de nos ser largado no colo.

Ainda bem que a fortuna que eu ganho com isto me continua a motivar. Está tudo bem!

…e culpados?

Pois, toda a gente quer culpados agora. Mas os culpados somos todos nós, pessoas que compraram uma RAFPR e de forma mansa fomos deixando legislar, legislar e legislar até chegar ao ponto em que é quase mais fácil e mais barato praticar tiro real.

Os culpados fomos todos nós que, embora tenhamos o poder de decisão sobre as associações em que estamos inscritos, pouco mais fazemos que escrever uns textos que se perdem na cronologia das redes sociais.

Garanto-vos que as “elites” do Airsoft, que referi no início deste texto, não faltam a uma Assembleia Geral da sua APD, onde moldam o Airsoft de todos à sua maneira pessoal de o ver.

Os culpados são os que se deixaram levar a escolher o lado a tomar, entre as quezílias pessoais dos dirigentes das APD e, infelizmente, entre os quais eu próprio me incluo no passado.

Até porque se alguém se der ao trabalho de desconstruir tudo o que está na origem da “falta de união entre APD”, não vamos encontrar mais que um punhado de nomes que não se entendem uns com os outros, e respetivos evangelistas.

E por isso, não falamos, nem temo que venhamos algum dia a falar a uma única voz, para dizer “Já chega desta merda. Airsoft é só uma diversão”.

Os culpados são os verdadeiros donos disto tudo: os milhares de praticantes que apenas precisavam da APD para comprar a arma, mas que agora também precisam da APD para poder tirá-la da caixa, e que nunca se fizeram ouvir como deviam.

E mesmo quando nos chegam boas notícias lá de fora, com o Airsoft a ficar de fora das penalizações introduzidas pela Comissão Europeia no universo da armas, cá dentro assistimos, mais uma vez, a uma oportunidade perdida para introduzir qualquer tipo de melhoria.

…mas não há motivo nenhum para o pânico. Está tudo bem, no bom caminho, e recomenda-se.

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