Por Telmo Fonseca

Como já vai sendo habitual, discute-se nas redes sociais o passado, presente e futuro do Airsoft em Portugal, algo que seria positivo não fosse a brutal maioria das questões e respetivas respostas totalmente inócua e sem qualquer conteúdo. Não acrescenta nada mais que o aumentar de clivagens entre pessoas e instituições, com a agravante de ser inconsequente e não melhorar a vida a ninguém, nem tão pouco ter qualquer impacto positivo no crescimento saudável da modalidade. Daí, impõem-se a colocação de algumas questões, sendo desde já imperativo destacar uma:

O que é que cada um de nós quer, individualmente ou em comunidade, para o Airsoft?

O que é mais importante? O meu ego? …ou o bem geral de todos, sendo que neste último caso também influenciará de forma positiva a minha experiência pessoal? O que é que está realmente mal, e me merece atenção no sentido de lutar e mudar para melhor?

Estas são as perguntas que considero realmente importantes, embora este seja apenas o meu ponto de vista pessoal enquanto praticante e entusiasta da modalidade. Para mim, questões como a existência de imortais e falta de fair play em eventos, embora importantes, são secundárias. Sempre existiram, sempre vão existir, e a única forma de mitigar essa questão teria de partir da criação de bases pedagógicas comuns a todos. E quanto maior for o número de novos praticantes a entrarem na modalidade sem qualquer apoio, pior será o problema. Quanto maior for o número de veteranos a “passarem-se” com o assunto e a responder com a mesma moeda, pior será o problema.

É um ciclo vicioso, que só teria uma solução: união.

E referindo essa mesma “união”, continuar a falar de “união das APD” quando o verdadeiro problema está na relação entre as pessoas que dirigem os destinos das mesmas, é inócuo. É um ciclo interminável de “diz que disse” e “diz que fez”, embora entre apenas meia dúzia de pessoas. Mas essa meia dúzia de pessoas influenciam dezenas, que passam a mensagem a centenas, e acabam por envolver milhares numa bola de neve que, na realidade, está apenas nas mãos de meia dúzia de pessoas.

E todos eles têm razões para tal, bem como todos os seus argumentos são absolutamente válidos, dependendo dos diferentes pontos de vista de cada um. Só não acrescentam nada de bom à modalidade.

Essa mesma “união” que tantos apregoam mas que não existe é o nosso ponto fraco enquanto comunidade.

É essa a razão pela qual estamos obrigados a uma das mais restritivas leis na Europa e no Mundo, e com tendência para piorar. É a razão pela qual os nossos “brinquedos” estão entalados e blindados dentro de legislação respeitante a armas letais, que nada têm a ver com o nosso desporto, exceto no seu aspeto.

É essa a razão pela qual nós, enquanto comunidade de milhares de praticantes, deixámos fugir por entre os dedos todo o poder, entregando-o de bandeja a uma instituição responsável por o fiscalizar que, na minha opinião, nem sequer gosta de Airsoft. Apenas o tolera.

E nós, praticantes e entusiastas de um desporto, permitimos que quem manda nisto simplesmente nos vá tolerando. Até ao dia em que o vão deixar de fazer, porque alguém que comprou uma arma de Airsoft não foi corretamente informado, ou não ligou à informação que lhe deram, e esticou a corda mais um bocadinho do que essa corda aguentava.

Nessa altura, todo o esforço de auto-regulação de milhares de praticantes durante uma dezena de anos vai valer o mesmo que as opiniões que se perdem no vazio: nada.

E ninguém vai fazer frente a nada, porque ninguém tem voz. Porque em algum lugar, num qualquer escritório, alguém vai decidir por nós que esta coisa de “Airsoft” incomoda. Ou pior: que dá dinheiro.

Neste momento, estas são, para mim, as questões importantes que importa colocar. Existem outras, certamente tão o mais importantes, mas que se perdem no confuso buzz feed das redes sociais, ou que vão com o vento naquele debate improvisado numa qualquer zona de respawn.

Porque é que não acabamos com esta treta das pinturas?

Porque é que não organizamos o maior e melhor evento de Airsoft da Europa, tendo todas as condições humanas, materiais, geográficas, meteorológicas e logísticas para isso?

Porque é que o Airsoft português movimenta centenas de milhares de euros, mas não é apoiado, divulgado ou patrocinado de forma profissional em lado nenhum?

Porque é que não se criam as condições pedagógicas que permitam um crescimento mais saudável e sustentável?

Porque é que não se entendem uns com os outros?

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