Por Telmo Fonseca

Realizado a 28 de maio de 2017, na realidade este evento começou a ser jogado praticamente dois meses antes, com a separação de fações, escolha de líderes e atribuição de enigmas e desafios a resolver que, após conclusão favorável, permitiam obter vantagens no evento em si, tais como a escolha de campo ou pontuação adicional para compra de “perks” para o desenrolar da ação.

Gostos são gostos, e este autor aqui só pode mesmo falar sobre aquilo que pessoalmente gosta de encontrar num evento de Airsoft. E encontrou tudo isso, e muito mais, fazendo o “New World Chronicles: Lost City” entrar diretamente para o pódio dos melhores eventos de uma década de Airsoft.

E tudo isto sem disparar uma única BB. Certamente que alguns engraçadinhos vão aproveitar esta última frase para fazer um qualquer paralelismo irónico entre não disparar BB e os clichés do MilSim. Na realidade, MilSim é muito mais que fazer peito cheio e olhar para o vazio, sangue, suor e lágrimas com um kit “tacticool” a condizer. MilSim é, acima de tudo uma abordagem mais estratégica e pensada sobre toda e qualquer movimentação num jogo de Airsoft. E neste evento existiu disso até à exaustão.

E também existiram BB a voar com fartura, grandes jogadores, um módulo de jogo absolutamente soberbo e integrado numa complexa história que se tem desenrolado ao longo de vários eventos organizados pelos mesmos anfitriões, um campo excelente e uma logística que pessoalmente não compreendo como é que 5 euros por participante pode alguma vez pagar. Já é apanágio dos Painkillers surpreenderem tudo e todos com os seus eventos. E desta vez não foi excepção, com uma organização e uma presença que apenas com relativa dificuldade se lhe poderia encontrar mácula.

Usando as palavras do Miguel “Homer” Oliveira, Comandante da Coligação do Sul, “Ao longo de várias semanas, sempre que visitava o campo para um treino com a equipa, existiam sempre elementos dos PK a trabalhar no mesmo (…) O jogo em si destacou-se em muitos sentidos, desde o enredo, o pré-jogo, a “construção” da base, os enigmas, os adereços e toda a preparação feita pela organização, que ultrapassou as expectativas.”

No desenrolar das operações, de um lado (Fação Norte) estava o Mário Correia e eu próprio ao comando da Coligação do Norte. Do outro, Miguel “Homer” Oliveira e Buka decidiram os destinos da Coligação do Sul. E o resultado de tudo isto, com dois comandantes muito conhecedores do terreno de operações (o terreno em questão foi angariado inicialmente pela equipa Ghost Ops, da qual atualmente o Homer pertence e à qual eu próprio pertenci na sua fundação, logo contamos ambos com dias e dias de treinos e jogos no local), foi uma verdadeira orgia extenuante de missões, umas atrás das outras, com as linhas constantemente a avançar e recuar, ataques cirúrgicos aos pontos onde mais poderiam fazer efeito, com todas as equipas no terreno a esticarem as pernas até não poderem mais. Tudo isto resultou em momentos de Airsoft sem paralelo.

Enquanto que a Coligação do Norte optou por criar zonas de “tampão” no terreno, adotando uma estratégia mais conservadora que permitisse circular de forma tranquila na conquista das várias missões, a Coligação do Sul centrou-se nas missões espalhadas pelo terreno fora da zona controlada pela Coligação do Norte, bem como no ataque a determinados pontos chave de forma incessante, provocando contínuo atrito nas linhas de defesa estabelecidas. De certa forma, assistiu-se a um embate entre uma estratégia mais convencional e uma verdadeira ação concertada de guerrilha.

Ao longo do dia, o controle de sensivelmente metade do terreno esteve nas mãos do Norte, embora não tenham faltado verdadeiros momentos de tensão em que as linhas caíram, e toda a fação tivesse sido chamada à defesa de pontos essenciais para manter a estratégia, tendo chegado a existirem BB a baterem na paliçada que delimitava o QG do Norte. Parabenizo aqui o meu “rival” por me ter feito a vida negra, e me obrigar a mudar tantas vezes de estratégia, recuar equipas e continuar a enviá-las para a defesa dos pontos chave pré estabelecidos.

No final, vi sorrisos daquele misto de satisfação e dor de pernas que só se vê ao cabo de um grande dia de Airsoft, embora tivesse visto também um parque de estacionamento vazio, algo que deixou adivinhar muitas saídas antecipadas. E este foi um fator que prejudicou muito as contas de quem tentou fazer do “Lost City” um jogo de estratégia, e não uma simples troca de BB ao domingo.

É o único fator negativo que consegui apurar, ainda assim muito longe de manchar um dos melhores eventos de Airsoft em que já tive o previlégio de participar.

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