Por Equipa GOA

Aquando da fundação do Grupo de Operacionais de Airsoft (GOA) em 2005, os seus integrantes estavam longe de imaginar que o modelo então idealizado e adotado de adaptação de técnicas e manuais militares à realidade e limitações do Airsoft viria a ser futuramente designado por MilSim.

Desde as primeiras utilizações da designação MilSim (Military Simulation ou Simulação Militar), até muito recentemente, pretendeu-se tipificar que atividades ou jogos assim deveriam ser designados. Todas essas tentativas pecaram por defeito, pois partiram do princípio de que apenas um tipo de atividade ou jogo deveria ser considerado MilSim, quando a realidade era bem mais abrangente.

Por exagero, pedindo uma definição a vinte praticantes de MilSim seriam certamente encontradas vinte definições diferentes, todas elas igualmente válidas!

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Apesar das evidentes lacunas enquanto classificação exaustiva de uma atividade ou jogo, a designação MilSim é útil para categorizar atividades e jogos que pretendem aproximar da melhor forma possível o Airsoft à realidade ou facetas da mesma, tendo a capacidade de colocar ao seu praticante desafios técnicos e táticos apenas condicionados pela imaginação dos seus criadores.

Esta muito intencional aproximação a cenários concretos pressupõe que o praticante trabalhe e prepare um conjunto de capacidades, tanto físicas quanto técnicas, necessárias à prática de MilSim que em muito contribuem para o autoconhecimento do praticante.

A vastíssima maioria destas actividades não requer a utilização de Réplicas de Armas de Fogo para Práticas Recreativas (RAFPR), mas sim, por exemplo, navegação terrestre, alimentação em campo, montagem de bivaques e acampamentos ou tudo o mais necessário para passar dois ou três dias em campo mantendo boas condições físicas e mentais.

É esta vertente da prática de MilSim que este artigo pretende abordar.

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Para melhor exemplificar uma abordagem MilSim imaginemos a colocação de um desafio no qual, em condições pré-definidas e limitadas de janela temporal, espaço e disponibilidade material, se teria de cumprir uma série de objetivos no terreno, bem definidos e claros, tendo que gerir os recursos disponíveis, capacidade individual e coletiva e tempo para os cumprir da melhor forma possível. Poderia ser parte de um qualquer jogo de Airsoft ou mesmo ser uma qualquer prova escutista, ou até mesmo uma prova topográfica militar. O desafio consistiria em saber aproveitar estes pontos de conhecimento e técnicas generalistas para que o praticante de Milsim se possa desenvolver a si, bem como à sua prática.

Foi este desafio que os GOA criaram para si próprios, como trabalho de campo para redacção do presente artigo.

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O que a equipa GOA executou, nos dias 18 e 19 de Fevereiro de 2017, foi a concretização real do desafio acima descrito. No decorrer dos dois dias, quatro elementos, apoiados e controlados por um quinto, numa das zonas de topografia mais difíceis do Alto-Alentejo, desafiaram-se a cumprir pontos pré-definidos em autonomia logística e gerir os seus recursos, esforço e janela temporal disponível.

Todo o exercício teve o claro objectivo de testar técnicas, materiais e a condição física, técnica e mental dos próprios praticantes. Tal revelou-se um desafio gratificante, não tendo sido necessário recorrer à utilização de RAFPR, e ainda assim revelando-se um exigente treino de MilSim.

Deste modo, a equipa GOA cumpriu objectivos topográficos no coração do Alto-Alentejo, sendo confrontada com situações de planeamento, decisão e execução que em tudo se assemelhavam às que encontraria num qualquer jogo MilSim. Para o cumprimento dos objectivos foi necessário procurar pontos de água para reabastecimento, gerir tempo, assegurar descanso, manter ritmos de marcha e progressão que não comprometessem a capacidade ao longo da actividade, utilizar técnicas de navegação terrestre, utilizar cartas topográficas, bússolas e até mesmo GPS, tudo isto trabalhando capacidades e adaptando materiais que virão a ser necessários em futuras situações de jogo.

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Analisando os meios utilizados, fossem estes mochilas, roupa, cartas topográficas, GPS, e outros, todos de fácil acesso e utilização recreativa, conclui-se a utilidade de todos eles para a prática de Milsim. Do ponto de vista desportivo e recreativo os elementos da equipa acima de tudo passaram tempo juntos, criando espírito de corpo e aprofundando valores como a amizade, solidariedade e entreajuda.

Importa lembrar a importância de medidas de segurança básicas como sinalizar a presença junto das autoridades locais e até mesmo, tal como foi o caso desta actividade, manter um acompanhamento próximo por parte de um elemento com uma viatura todo-o-terreno, cumprindo a dupla função de controlo de pontos e tempos e de apoio de proximidade em caso de emergência.

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Apesar de em momentos de “contacto” o “confronto” se dar quase sempre recorrendo à utilização de RAFPR não se trata de um contra-senso realizar actividades que as dispensem, pois existem muitas outras valências igualmente fundamentais para a prática do Airsoft na vertente MilSim. Tudo o que acontece antes do confronto ou após o mesmo pode assim ser treinado e posto em prática em zonas e ocasiões em que não seja possível utilizar RAFPR. É frequente encontrar praticantes que, mesmo não tendo entrado em ocasiões de confronto directo obtiveram satisfação através do cumprimento de objectivos que levaram a que fossem atingidos bons resultados colectivos.

É o caso de quem se divertiu em jogos em que não tendo dado um “tiro”, mas tenha ajudado a sua facção de jogo a triunfar colectivamente.

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Sempre que a prática de MilSim se insere em meio rural, a capacidade de navegação terrestre torna-se fundamental. A necessidade de navegar durante dezenas de quilómetros, encontrando diversas condições de terreno e climatéricas de forma eficaz, requer prática e conhecimentos específicos.

Felizmente, a prática de orientação e navegação terrestre não sofre dos mesmos constrangimentos da prática do Airsoft, tornando assim possível treinar, de forma expedita e legal através da participação em provas de orientação, simples caminhadas ou atividades de trail.

A participação coletiva neste tipo de atividades, para além de contribuir para a aquisição de competências e valências úteis à prática de MilSim, tem como efeito secundário positivo contribuir para a formação de espírito de equipa que as atividades de natureza propiciam.

Numa primeira abordagem é frequente existir o receio de que a prática de MilSim acarrete um investimento elevado em material. Tal não constitui verdade absoluta. Este pressuposto revela-se falso, sendo possível adquirir todo o material necessário a criar condições de conforto e segurança evitando gastos excessivos. Regra geral, o material encontrado no mercado de excedentes militares (surplus) é mais barato e, ao mesmo tempo, mais adequado que o material novo destinado à prática de Airsoft, sendo ainda possível conseguir um sem número de acessórios, como GPS, bússolas e sacos-cama a preços acessíveis, recorrendo à rede de lojas de desporto nacionais. A título de exemplo, um candidato à prática de MilSim pode, pelo custo de uma RAFPR de gama média/alta, adquirir botas, mochila, abrigo e saco-cama, podendo mesmo poupar algum dinheiro.

Em suma é possível afirmar que o MilSim é um conceito abrangente podendo grande parte das suas vertentes ser praticada de forma relativamente acessível e sem recurso a RAFPR, sendo apenas necessários vontade e tempo.

Basta dizer que até uma simples corrida ao fim do dia pode contribuir para melhorar a preparação física do praticante de MilSim.

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