Por Telmo Fonseca (Jornalista Visual)

Em serviço desde 1958, a “Gewehr 3” é uma espingarda automática de calibre 7,62 fabricado pela mítica casa Heckler & Koch e que, graças à sua construção e manutenção simples, foi adotada um pouco por todo o Mundo até aos dias de hoje. Adotada em Portugal aquando da Guerra Colonial, a G3 continua a ser a arma mais utilizada pelas Forças Armadas Portuguesas, pelo menos, até à sua provável substituição pela G36, fato que lhe confere uma importância muito especial no que toca ao imaginário bélico nacional, e motiva esta profunda análise a uma réplica também ela de baixo custo e manutenção simples.

Esta arma vem muito bem apresentada numa caixa de dimensões consideráveis. Na parte de fora da embalagem figuram algumas fotos da réplica, juntamente com informações variadas sobre o modelo e as suas especificações técnicas. Nota positiva para o grafismo, que está bem concebido e é bastante informativo sobre o produto que temos nas nossas mãos.

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Ao abrir a caixa, deparamo-nos com uma réplica muito bem acondicionada entre placas de esferovite, e onde também não faltam alguns elementos gráficos simpáticos, impressos nos cartões ao seu redor. Juntamente com a réplica vem o essencial carregador high-cap, com capacidade para 500 BB’s, uma bateria Ni-Cd 8.4V 1500 mAh, um carregador de bateria, um pequeno pacote de BB’s, uma vareta de desobstrução de cano e bastante documentação para o utilizador. Nota também ela positiva para os dois sacos de sílica gel que acompanham o conjunto, numa tentativa de evitar qualquer tipo de corrosão do equipamento.

O carregador high-cap, específico para modelos G3, tem boa construção e funciona imaculadamente. Confesso que como antigo utilizador deste modelo específico de réplica, uma das características que mais me agradava era precisamente a alta capacidade de munição dos seus carregadores, bem como o fato de estes poderem ser acomodados em bolsas duplas para mags de M4.img_1259

O carregador que figura nesta análise não envergonha ninguém, excluindo obviamente os mais puristas que preferem maior aproximação à realidade. Mas também estes podem optar por facilmente adquirir mid-caps ou mesmo low-caps, disponíveis na maior parte das lojas. Creio que o único inconveniente deste modelo é o elevado ruído que faz com as BB’s a chocalharem no seu interior.

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Dentro do pacote, e acomodados numa caixa específica, a JG envia-nos também uma bateria e um carregador para a mesma. Obviamente que a bateria não tem grande qualidade, e será recomendável adquirir posteriormente algo que alimente melhor a pesada mecânica que esta réplica traz de origem.

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O autor deste texto testou a réplica quer com a bateria de origem, quer com uma simples Li-Po de 7.4 V, e as diferenças foram consideráveis, não só no simples fato de se obter mais cadência de tiro, mas ainda no próprio “arrancar” da mecânica para o disparo. Com a bateria de origem, a réplica faz o ciclo de disparo com um barulho que denota sofrimento, e o tempo entre premir o gatilho e o disparo final chega a ser ridículo. Não creio ainda que a pobre bateria dure tempo suficiente para nos fartarmos deste processo. Ela funciona, é um fato, mas muito mal. O carregador de bateria que a acompanha também não se apresenta como grande investimento, já que lhe falta a característica de se desligar aquando do total carregamento das células, o que previsivelmente vai encurtar o tempo para a bateria entregar a alma ao Criador. Claro está que, pelo preço do conjunto, não se pode exigir muito mais.

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Fora as BB’s de série, que pessoalmente não me recordo de já as ter utilizado em qualquer réplica que me tenha passado pelas mãos, e a comum vareta de desencravamento, sobre a qual não há grande coisa a dizer, resta-me deixar uma nota final ao excelente manual de instruções que acompanha o conjunto. Muito completo, com bastantes detalhes e informações sobre a réplica, sendo mais um sinal claro de que estes senhores não se pouparam a esforços no que toca ao design gráfico.

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Aspecto exterior e componentes:

Apesar de ser quase exclusivamente fabricada em plástico de qualidade duvidável, fora alguns componentes internos e estruturais em metal, o aspecto exterior não envergonha rigorosamente ninguém, tendo sido dada muita atenção a todos os detalhes. Como exemplo disso, refiro a simulação de soldaduras junto da janela de ejecção.

O fato de os externos da réplica não serem em metal, conferem-lhe ainda um peso muito baixo, com benefícios óbvios para o utilizador que passe muito tempo com ela em campo, dispensando algumas visitas ao osteopata. As miras reguláveis, o manobrador da culatra que dá acesso à regulação de hop-up, a patilha de seleção de tiro que se movimenta em ambos os lados da réplica e os pinos de desmontagem rápida demonstram toda uma série de cuidados que foram tomados na construção deste modelo.

Tudo funciona muito bem, sem folgas desnecessárias, e confere à T3-K3 uma utilização interessante, bastante aproximada da arma real. A patilha ambidestra que prende o carregador é construída em metal, tem bastante força, e o carregador não tem folgas quando ancorado à réplica.
Não tenho qualquer problema ao afirmar que o aspecto exterior desta réplica é a sua maior mais–valia, apenas pecando pela construção em plástico, como já referi anteriormente.

Performance:

Com um simples empurrar no sentido descendente da tampa da traseira da coronha, temos acesso ao generoso compartimento da bateria, para nos deparamos com uma comum ficha tamika mini no extremo de uma cablagem com ar robusto e aparente qualidade. Logo atrás da ficha de ligação, está instalada a câmara que recebe o providencial fusível, e que evita danos maiores em caso de má utilização. Aqui, nota também ela positiva para os dois espaçadores em fita, e que permitem fixar a bateria de origem entre eles, evitando “chocalhar” desnecessário.

Passando à frente da deprimente utilização da bateria de origem, e instalada uma outra bateria com mais qualidade, ao premir o gatilho somos brindados com um ruidoso ciclo de tiro, que deixa desde logo adivinhar um shimming de má qualidade e um motor mal afinado. Nada de grave, e francamente fácil de resolver, sendo que pelo preço que se paga pela réplica ficaria muito surpreendido se tivesse outro registro que não este. O “soltar do pistão”, e a vibração excessiva que este provoca no conjunto, deita ainda por terra qualquer esperança de que os valores de potência anunciados no exterior da caixa estejam sequer próximos da realidade, mas sim para muito mais elevados.

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Os primeiros disparos enviam as BB’s para uma agradável distância próxima dos 40 metros, apenas lhes faltando a consistência que se espera de uma réplica com este comprimento. Sobre esse assunto, que no fundo é o mais importante, falarei no final.

Puxando o manobrador da culatra atrás, este arrasta a janela de ejecção e providencia acesso à regulação do efeito de hop-up. O sistema de hop-up comum aos modelos de G3 está bem desenhado, sem fugas graves, e a T3-K3 especificamente não se fica nada atrás. O efeito de hop-up funciona bem, notando-se clara diferença no efeito de back-spin da BB, permitindo regular a força e ganhar até mais 10 metros de alcance.
Medida no chrony, com BB’s de 0.20g, a T3-K3 registou valores médios de 371 FPS, perfeitamente adaptados à nossa legislação. Peca apenas pela fraca consistência entre tiros, que ronda os 25 FPS, e tem um efeito devastador nos utilizadores mais exigentes no que toca à precisão do tiro.

Na generalidade, saída diretamente da caixa, a T3-K3 serve perfeitamente os anseios da grande maioria dos utilizadores de réplicas de airsoft, sendo que numa análise mais cuidada, temos a vantagem de poder melhorá-la consideravelmente, sem recurso a grande investimento.

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Internos:

Também ela uma das características que sempre me agradou nos modelos G3 é a facilidade de acesso ao “coração” da máquina, e no caso da T3–K3, uma comum gearbox de tipo II, não reforçada. Desaparafusando e retirando os dois pinos traseiros, juntamente com o mais pequeno junto à entrada do carregador, podemos deslizar a coronha para fora do corpo da arma, tendo o cuidado de não danificar a cablagem elétrica.

Posteriormente, resta-nos deslizar o a gearbox com o punho e a metade inferior do corpo para fora do fuste. De notar que existem modelos HK que se fazem utilizar de pinos rápidos, sem parafuso, mas no caso desta réplica específica, e derivado da sua construção em plástico, o resultado da utilização desses pinos provocaria demasiado efeito “wobble” entre a coronha e o corpo da réplica. Ao socorrer-se de parafusos de aperto, o fabricante garantiu que todo o conjunto ficasse bem apertado e sem folgas. Retirando o punho, um pequeno acrescento estrutural traseiro junto à guia de mola e a patilha de seleção, simplesmente puxa-se a gearbox para fora do corpo e pode-se efetuar qualquer intervenção na mesma.

As compatibilidades com material comum para réplicas de modelo M4 são quase totais, com exceção do gatilho, placa de seleção de tiro e noozle, este último provavelmente standard em modelos de MP5, já que o que acompanha esta réplica tem gravado em relevo a sigla “MP5”.

Começando pelo hidráulicos, todos eles têm um ar barato. não sendo exceção quer a guia de mola 100% moldada em plástico, com uma anilha metálica a fazer as vezes de um rolamento, quer os restantes componentes como o pistão em policarbonato com um dente em metal, que faz conjunto com as cabeças de pistão e cilindro, também elas em policarbonato branco. Algo que me saltou imediatamente à vista foi o cilindro perfurado de tipo B, claramente inadequado para uma réplica com um cano interno com 506 mm, e que carece de todo o ar que lhe possam dar para expelir as BB’s em toda a sua performance. O o-ring da cabeça de pistão não veda muito bem, provavelmente fruto de um diâmetro inadequado e do excesso de gordura.

Em relação aos elementos mecânicos, são robustos e funcionam francamente bem, com exceção dos bushings em nylon, que em réplicas com potências na casa dos 300 FPS são perfeitamente adequados, mas no caso da T3-K3, e devido à elevada rigidez da mola com que vem equipada, os bushings deixam adivinhar um desgaste prematuro, com consequências trágicas em todo o sistema.

O shimming está limitado à simples colocação de uma anilha em cada extremo das gears, não tendo existido qualquer preocupação em limitar as folgas consideráveis em relação à gearbox.

Em suma, os internos não deixam dúvidas sobre o custo da réplica, sendo de qualidade bastante baixa, não obstante a potência global e o funcionamento aceitável do conjunto. A boa notícia é que são facilmente substituíveis por peças de maior qualidade, e com um pequeno investimento pode-se alongar consideravelmente a duração da réplica, já para não falar da qualidade do tiro e da performance global. A T3-K3 é uma boa plataforma, que funciona bem logo ao saltar da caixa, e permite melhoramentos em muitos aspectos. A facilidade de acesso à gearbox também vai poupar muitas horas em mão de obra.

Upgrades recomendados:

Com uma chave sextavada, afine o motor de forma correta até ele fazer menos barulho. É fácil e de graça. Mude os bushings para uns em metal, com 6mm de diâmetro. Isso, por si só, juntamente com um shimming correto, vai alongar consideravelmente a durabilidade da réplica. Aproveite e remova a quantidade descompensada de massa consistente que cobre todos os elementos internos, substituindo-a por massa de silicone apropriada. Um cilindro fechado, juntamente com uma cabeça de pistão decente vai garantir maior vedação e mais consistência de tiro, além de aumentar os FPS. Provavelmente, e se efetuar esta intervenção, terá de cortar a mola se pretender manter a réplica com a potência dentro de valores legais. Um rolamento na cabeça de pistão também será uma mais-valia.

Para os que pretenderem utilizar esta réplica para fazer tiro de longo alcance, um cano de precisão e uma borracha de hop-up compatível podem fazer milagres, embora eu pessoalmente não recomende esta intervenção, já que os custos inerentes não se justificam numa réplica de preço tão baixo.

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